- Pai, amanhã não tem aula. É feriado. Posso ir dormir na casa do Tio Fufu?
Foi assim que Caio, meu filho mais velho, chegou da escola, eufórico por causa do feriado.
- Não haverá aula por quê, meu filho?
- É feriado papy.
- Devido a que, boy?
- Independência do Brasil, ora!
- Mentira!
- Mentira o quê?
- Amanhã é feriado por causa do aniversário de Mariana Monteiro.
- Que mané Mariana Monteiro papai!
- Olhe como fala comigo, rapaz. Preciso lhe explicar umas coisas.
- Pois então me diga
- Meu filho, a escola é muito importante para a educação das pessoas. Mas as coisas mais importantes são aprendidas fora da escola. É interessantíssimo o estudo da história, porém as coisas são distorcidas quando são ensinadas às nossas crianças.
- Eu não sou mais criança, você sabe muito bem disso!
- Sei filho, perdão. Mas aos adolescentes é que as coisas são deturpadas mesmo, para que nossos jovens fiquem inertes diante das injustiças e arbitrariedades dos nossos governantes.
- Que nóia é essa Papito, aonde você quer chegar com essa conversa?
- Primeiramente, sabe quando o Brasil foi independente e soberano?
- Não.
- Antes do descobrimento. Essa independência que você está falando é em relação a quem?
- A Portugal, num era de Portugal que éramos colônia?
- Pois bem, deixamos de ser colônia de Portugal para ser da Inglaterra. Como hoje somos ‘colônia´ dos EUA. Filho, depois da descoberta do Brasil, nossa terra ficou a mercê dos prazeres dos portugueses, em outra época dos espanhóis (quando dominaram Portugal). A Holanda também tirou sua casquinha, o bom disso é que nos deixou o Recife Antigo como herança. O Recife Antigo que Mariana Monteiro tanto ama.
- Que porra de Mariana Monteiro é essa, pai? O senhor é apaixonado por ela? – Caio se arretou e me interpelou.
- Calma, meu filho. Mariana é uma grande amiga. Não sei como é que nunca falei nela. Eu conheci sua mãe na casa dela. Daqui a pouco lhe falo um bocado de coisa sobre Mariana Monteiro pra que você veja como amanhã é feriado por causa do aniversário dela.
- Tudo bem,
- Sempre que alguém nos quis empurrar alguma idéia goela abaixo, ou apoderar-se das nossas riquezas, a coisa foi feita sem consulta prévia ao nosso povo. O modo de governo no Brasil sempre foi ditatorial ou populista, no segundo caso usando como principais recursos, a alienação ideológica, a exploração das dificuldades populares, a farsa política e, principalmente, a mentira eleitoreira, entre tantos outros artifícios tão baixos e sujos quanto estes. Foi assim que tantos países se enriqueceram às nossas custas e ainda hoje uma organização oculta e criminosa controla com uma mão invisível nosso país, fazendo do nosso presidente um títere do capital internacional ao mesmo tempo em que aparece para o povo sofrido, como o mito salvador. São dois golpes de uma vez, o povo se fode achando que tá por cima da carne fresca.
Caio foi ficando cada vez mais interessado pela minha história e eu continuei, doido pra terminar logo para poder falar um pouco de Mariana.
- Voltando aos livros, algumas das mentiras que falo são: você aprendeu que um dos grandes heróis nacionais é Duque de Caxias, patrono do nosso exército. Pois digo, um é tão parvo quanto o outro. Duque de Caxias está longe de ser herói. Pelo contrário, filho. Ele foi um dos maiores sanguinários da história, dizimando mais da metade da população paraguaia (80% da população masculina), numa guerra que interessava exclusivamente aos ingleses, que eram os nossos ´donos´ na época. O nosso exército de tantas ´glórias´, meu filho, empreendeu suas maiores expedições, ou contra países vizinhos-irmãos ou contra os próprios brasileiros. Também, atacaram comunidades legítimas como Canudos de Antônio Conselheiro e o Caldeirão do Beato Zé Lourenço. Comunidades que não representavam nenhuma ameaça a tal república que então surgia. Na ditadura de 1964, assassinaram nossos jovens, nosso futuro; podaram nossos galhos mais férteis para agradar o interesse de um novo sistema que deseja se instalar a qualquer custo no país, o neoliberalismo. Inescrupuloso neoliberalismo, que no nosso país já nasce assassino, já chega espalhando terror e desigualdade. Mataram muita gente da maneira mais absurda e cruel do mundo com inimagináveis práticas de tortura. Atitudes covardes, desprezíveis, onde a maioria dos militares não sabia nem porque estava fazendo aquilo. Os militares atacavam os comunistas sem saber o que era comunismo. Atacavam sem saber que podiam estar ferindo a si próprio. Diziam defender a pátria, mas não tinham consciência para discernir sobre quais eram os objetivos, ou quem eram seus patrões, ou o porquê de tudo aquilo estar acontecendo.
E Mariana Monteiro entra onde nessa história papai?
- Já, já filho.
- Ela é revolucionária, pai?
- Calma filho, senão eu perco a ordem das coisas.
- Hoje, meu filho, a situação é caótica. O povo está cada vez mais descrente da política e o maior perigo é que essa é uma estratégia do sistema; uma estratégia alcançada. Estamos vencidos, mas "o moinho nunca pára", lembra do Tio Alexandre Santos? "Ainda estão rolando os dados" como dizia o maluco do Cazuza que de maluco não tinha nada (é tinha um bocado de coisa, sim!). Nós temos que continuar lutando, meu filho. Temos que alertar nossos vizinhos, nossos parentes, nossos amigos e até mesmo nossos inimigos. Temos que esquecer qualquer diferença, pois temos um adversário extremamente poderoso para derrubar, é preciso força. Quanto a datas, poderíamos comemorar os dias de Frei Caneca, Filipe Camarão, Manoel Lisboa, Stuart Angel, Zuzu Angel, Carlos Lamarca, Olga Benário, Carlos Prestes, Anita Garibaldi, Wladimir Hezog e tantos outros que esqueço o nome agora, assim como os que ficaram no anonimato, mas nem assim são menores que estes dos quais falei. Ninguém reconhece isso, porque no nosso país nunca houve governo que representasse o povo, esse de agora é uma farsa como outros populistas foram e é por isso, meu filho, que hoje sou um dos anônimos que luto, dou meu suor e se preciso meu sangue na tentativa de construir, enfim, uma sociedade justa e um país soberano, por isso sou um militante socialista e...
- E Mariana, papai, ela também é militante? Eu quero ser militante socialista também.
- Ainda não, meu filho! Ela não é militante, mas tem tudo pra ser. Mariana é uma grande amiga do seu pai e da sua mãe e você deve inclusive chamá-la de Tia Mariana. Foi na casa dela que eu conheci sua mãe, como já disse. E nesse dia estávamos comemorando o aniversário dela. Levei minha banda pra Natal e fizemos a melhor apresentação da nossa vida lá. Conheci João Alfredo que é irmão de Mariana e é um amor, e também Tio João o pai dela, uma daquelas pessoas que se manda fazer. Jayme estava lá. Jayme não existe, é virtual, foi uma pessoa que Mariana inventou e fez todo mundo crer. Ela não mandou fazer, esculpiu com os seus próprios dedos. Fez os cabelos, os sorrisos e inclusive sua cidade, que ela batizou de são José do Rio Preto, o IBGE também acreditou e colocou essa cidade no mapa, mas garanto-lhe filho, não existe. Se por acaso você vir no seu livro de geografia, saiba que é mais uma mentira dos livros. Os livros mentem muito.
- Mas Mariana compactua com as mentiras dos livros?
- Não filho, na verdade quem acabou mentindo foi eu. A cidade existe, mas acabei usando um artifício literário para embelezar o texto e enriquecer a prosa, além de também usar brincadeiras do nosso cotidiano da época para aguar nosso saudosismo.
- Porra, pai, assim não vou entender mais nada.
- Calma filho. Existe São José do Rio Preto e existe Jayme. É porque dizer que foi mandado fazer, era uma expressão que usávamos bastante quando íamos falar de uma pessoa, ou muito interessante, ou muito querida, ou muito engraçada ou muito exótica como eram os dois menininhos que Gy mandou fazer no dia do primeiro show do FIRAS.
- E o que é FIRAS?
- Aí é uma história muito longa, filho. Deixe-me falar mais de Mariana. Ela morou com Sandra logo que me formei e saí do Recife. Ela ficou no meu lugar e achava muito estranho a maneira como fui embora deixando tudo e sem dizer nada. Eu sempre fui doido, filho. Tive muitas conversas interessantes com ela por telefone, e via que ela parecia um espírito meu, num corpo feminino naquele momento.Foi como se ela assumisse a carga que eu havia deixado suspensa no ar quando parti pro Ceará. As pessoas fizeram muitas comparações ao nosso respeito e acabei fazendo uma das mais belas músicas minha em parceria com Renato, em homenagem a ela, chama-se Epifânica. Em um trecho da música falo que ela é minha versão feminina.
- Ah Pai, eu quero conhecer a Tia Mariana!
- Em breve você conhecerá, ela agora está em Londres terminando o seu doutorado em Psicologia.
- Fala sério pai, você já namorou com ela, num já?
- Não, filho. Sempre tive uma admiração imensa por ela, mas algo transcendental. Mariana é mandada fazer, filho, você também vai amá-la. Ela é linda, inteligente, cheia de coisas marianenses, fala "fu-de-ro-so" como ninguém, ela também fala "ca-ra-lho" de um jeito só dela; ama música boa, ama literatura, foi através dela que conheci a literatura beatnik e o meu contato com Maris influenciou até a minha maneira de compor, ela me fez acrescentar mais uma estrofe à música Porre na Literatura; ela gosta de fumar um e "filosofar" igual a mim, aquelas filosofias tão engraçadas. Dá uma saudade tão grande de lembrar; se ela não estivesse em Londres eu iria pra Natal agora dá uma bolinha com ela. Mas claro que divergimos em outros pontos, em muitos. Isso não diminui nem eu nem ela, pelo contrário, é debatendo, é argumentando e contra-argumentando que se chega a uma síntese, um dia vou lhe falar da dialética, espero que você também se interesse por esses assuntos marianenses. A mais importante semelhança que vejo em Mariana em relação a mim é a preocupação com os que mais precisam; na terra, é isso que nos faz viver, é isso que nos faz sonhar e sonho que se sonha junto é a ante-sala da realização. Por Mariana ser essa pessoa tão importante é que amanhã será o dia dela e não da pseudo-independência do Brasil. Vamos mandar um e-mail pra ela, vamos? Chama ali sua mãe e amanhã pode ir passar o feriado com o Tio Fofolete sim!
- Passariiiiiiiiiiinha, papai tá te chamando!
Roberto Romano
Os sindicatos ajudam a conquista de direitos profissionais e civís. Mas é possível verificar uma afinidade excessiva entre partidos e movimentos sindicais, o que obstaculiza o livre movimento de ambos. Os diretores de Centrais operárias podem reduzir o seu papel ao plano de simples correias de transmissão entre governo e trabalhadores. Surge o pelego que adocica o amargor das medidas impostas pelos antigos parceiros dos trabalhadores, agora nos palácios. Pelegos auxiliam governos autoritários a dobrar a vontade dos cidadãos. O período varguista os conheceu, bem como a época de JK e de Jango. No governo militar os pelegos foram prestativos. Contra eles, surgiu o movimento que viu Luis Inácio da Silva como um líder. Na liberdade dos sindicatos diante dos patrões e do governo, o PT encontrou a fórmula que lhe deu crescente apoio das massas. O governo do PT deixa de aplicar a ética na política, na medida em que a governabilidade o conduz aos mesmos gestos das administrações anteriores. Do é dando que se recebe à leniência diante de irregularidades (o foro privilegiado do presidente do BC), à perseguição dos críticos que sempre foram os seus sustentáculos (as expulsões de parlamentares do PT), a ética se tornou rarefeita no ambiente petista. Some-se a traição cometida em Fortaleza e Salvador, o desmantelamento dos direitos, etc.
Agora se prepara a reforma sindical. Sindicatos não alinhados com o governo, preparem o lombo. Uma denúncia forte desta possibilidade encontra-se em Nota do Andes Sindicato Nacional que representa os movimentos universitários docentes do Brasil. Cito a nota: No final de setembro, chegou ao ANDES-SN cópia de uma correspondência encontrada na impressora da sala de computadores destinada aos hóspedes do Hotel das Américas, em Brasília, que fora encaminhada ao Secretário Executivo Adjunto do MEC, senhor Jairo Jorge. Confirmadas a autoria do texto e a veracidade do tema tratado, sem dúvida, estaríamos diante de gravíssima ingerência governamental na autonomia sindical. Por essa razão, o ANDES-SN solicitou formalmente um posicionamento oficial do MEC sobre o assunto. O silêncio do Ministro, até o momento, e as evasivas do senhor Jairo Jorge alimentam as inquietações do Sindicato.
No texto, o suposto autor se identifica: Meu nome é Homero Catão Maribondo da Trindade, estive junto com o Gil Vicente no seu gabinete dia 14/09/2004 por volta das 19h30, tratando entre outros assuntos da criação de um organismo, um fórum, que trate dos interesses exclusivos das Instituições Federais de Ensino Superior, onde estiveram também presentes o Ministro Tarso Genro, o Sylvio Pétrus e o Fernando Haddad. Na despedida, solicitei a sua autorização para enviar este e-mail, para tratar de um assunto inicialmente colocado para o Vladimir Nepomuceno do MPOG quando estive com ele, juntamente com o Gil Vicente, tratando entre outros assuntos de emissão da medida provisória.
Em 27 /09/ 2004 o Andes pediu a Tarso Genro uma audiência para tratar do assunto, mas ele não respondeu. O Andes, então, encaminhou Notificações Extrajudiciais Premonitórias a todas as pessoas mencionadas como presentes à reunião realizada no dia 14/09/2004 no gabinete do Secretário Executivo Adjunto do MEC. O alvo era saber a natureza da nova entidade proposta. Em 5/11/ 2004 o Secretário Executivo Adjunto do MEC respondeu à Interpelação. Examinando a resposta do Secretário Jairo Jorge, é possível depreender que o referido Secretário confirma a existência da correspondência do Professor Homero Catão M. da Trindade, sugerindo uma suposta violação de correspondência. Termina a nota do Andes. Depois das espionagens ao modo da Kroll, é estranho que o modus operandi seja tão rocambolesco. Mas o Brasil vive em ritmo de rocambole: tudo se dobra, numa curva sem fim.
Mas seria ética a correspondência sigilosa entre ministro e docentes, quando o assunto é a formação de novos organismos representativos, à revelia dos que já existem ? Se a reunião referida existiu, onde vai parar a determinação da OIT que proibe ingerências governamentais nos sindicatos? O governo não está contente com o Andes porque este último se coloca em sentido contrário às "reformas" da universidades, consubstanciadas em medidas provisórias e outros meios de fragílima legitimidade legislativa? Está o governo preparando, com a criação do novo organismo a "reforma sindical" que atenuará o poder de fogo do sindicato na defesa de sua categoria? Se a resposta for positiva, assistimos o renascer do peleguismo, o que envergonha os professores universitários brasileiros.
Trecho da entrevista com o escritor José Saramago, o primeiro autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, publicada esta semana na Revista ÉPOCA.
- Por falar em Brasil, o senhor apoiou o governo Lula no início. Qual a sua opinião hoje?
Saramago - Prefiro não falar nisso, vamos esperar para ver no que dá. Mas é brutal. O desgaste que o governo Lula sofreu é muito forte. Depois de tantas esperanças, não imaginávamos que escândalos de corrupção tomassem o governo Lula, que representava uma luz nova para um mundo cada vez mais mergulhado em interesses mesquinhos. Ele não poderia ter admitido a corrupção, e não consegue mais combatê-la. Vamos aguardar as investigações.
O senhor acha que Lula ajudou a projetar o Brasil?
Saramago - No começo, sim. Mas, na situação atual, Lula está amarrado: sua liberdade de ação é limitada. Ora, esse fato é muito sério para o Brasil, que tem um regime presidencialista. Lula está de pés e mãos atados e parece que não vai mais conseguir fazer as grandes medidas que prometeu no plano social. Foi uma decepção para o mundo.
Em outro trecho da entrevista afirma o escritor:
Saramago - Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo. Como podemos ser otimistas diante de um planeta onde as pessoas vivem tão mal, a natureza está sendo destruída e o império dominante é o do dinheiro?
Ei, passarinha
Vem cantar em minha janela
Canta aquela voz assim: singela
Canta o meu sussurro
Aquele às vezes imoral
Canta as minhas juras
Pode até pôr no jornal
Canta todos os sinais
Que encontrou no corpo meu
Conta para o mundo
Que o meu canto é todo seu
Canta como eu gosto
Que toda vez peço bis
Que eu sou o seu cantor
E você a minha atriz
Joga em minha cara a sua trança
Que eu a chamo de criança
E bebo na sua boca
E acho linda, acho louca
Tiro um fino, tiro um sarro
Depois pago o seu cigarro
Você diz que acha ruim
E eu: tem que ser assim
Depois vamos para a cama
Com o enredo, com a trama
Eu invento alguma nóia
Você diz que a clarabóia
Vai queimando as minhas costas
Eu nem ligo e vou sugando
Todo o mel da sua alma
Você vem me pedir calma
Eu digo que tenho pressa
E peço que você meça
O tamanho de tudo isso
Sugere-me um compromisso
Que pra mim não é nada mal
Vou fazer meu carnaval
Pra conseguir um cacife
Pra trazê-la pra Recife
Ou ir morar em Natal.
Vernon Bitu
Atiras em mim
Eu te quero ainda mais
Que mais e mais pra mim nunca é demais.
Atiras em mim eu e saio andando
Andando, queimando. Que sou Nando
Reis às seis
Às sete Amarante, às oito amante
E ainda lembro que primeiro
Eu fui o Bi Ribeiro
Querendo te beijar..
Atiras em mim e sou pequeno
Eu sou o dreno onde flui a alegria
A alergia e inchaço
Eu sou um cacho
De amasso, de cabelo e de poesia.
Atiras em mim que canto A Rita
E essa Rita, essa Rita, essa Rita
Não me irrita
Mas me morde pra sarar minha agonia.
Atiras em mim no fim da noite, meu açoite
E eu quero morrer com a madrugada
Quando nada ou quando a fada Aurora que demora
Com Pandora a dar à luz um novo dia.
Atiras em mim na minha boca, porra louca
Louca e me beija, que é deja, é deja, é deja vu
Eu já vi esse olhar esverdeado
Pintado, pintado esses cabelos
Com a tinta do meu sangue
Ou dos meus cabelos ruivos.
Atiras em mim às dez e põe os pés
Na minha cara
Não pára, não pára
É só lamber, lamber e saber
Que eu sou da cor que alguém me desenhou
Atiras em mim de trás pra frente
Que na mente verão o teu nome
Que some, some e aparece
E cresce, cresce, cresce
Até romper o fim
Atiras em mim que sou uma sátira
Atiras em mim e eu em ti de novo
Atiras
Vernon Bitu
Sua agonia sou eu
Não vá machucar quem não te magoou
Que eu sou o último balde da cacimba
Sou extremo, ou sou frio ou sou calor
Tome uma vacina anti-eu
Que sou o pico, sou o teco, sou o tapa
Eu sou o fim, a loucura, sou o coma
Eu sou a cama de pedra do maníaco
Sou a mania de deitar antes do sono
Sou tipo o sonho de um cadáver entorpecido
Que insiste em não morrer depois da vida
Eu sou ferida que não quer mais que inflamar
Eu sou remédio que a alma faz arder
Eu sou o começo do fim, eu sou a morte
Eu sou a sorte que a vida faz morrer.
Vernon Bitu
Fecha-me a porta na cara
Leva um pedaço de mim
Fala que eu sou imprestável
Também não me deixa viver.
Rouba meu sono de novo
Que fico doente pra sempre
Rasga as poesias que faço
Assassina as flores que mando
Queima meus livros e músicas
Sê feliz sem meu amor.
Mas manda uma carta dizendo
Pra eu não mais te procurar
Nem poemas, nem jantar
Que eu não posso mais te ver
Que eu tente te esquecer
Ou te esqueça sem tentar
Que eu bem viva
Ou que eu me mate
Mas que não mais te procure
Nem deseje o teu amor.
Amaldiçoe o dia
Em que eu te conheci
As canções que ouvimos juntos
Nunca mais queiras ouvir
Esquece que eu existo
Mas não esqueças de avisar
Que a pior arma do mundo
Que me mata devagar
É a tua indiferença
É o silêncio de estrondar os meus ouvidos
É o desprezo de um amor
Que eu jurava
Estava prestes a alcançar
Manda-me ao inferno
Mas grita
Fala
Berra
Explicíta.
Não me deixa agonizar
Que o silêncio é o insulto maior
É a loucura das loucuras
Que tu podes me causar
É uma imensa covardia
Que eu não posso suportar.
Vernon Bitu
A poesia que não fiz
Hoje eu acordei pra fazer uma poesia.
Ela estava em mim
Queimando-me por dentro como azia
Cortando-me com as arestas das rimas
Agitando-me com o tempo dos verbos
Uma overdose silábica
Um mar de substantivos
E uma imensidão adjetivada.
Sai me batendo pelas paredes
Preso na vertigem literária
Ansioso pelo trem da inspiração.
Como os trens se atrasam!
Procurei perfeição em tudo
E me perdi entre temas distintos
Um absurdo de esquecimento.
Deixei cair uma vírgula de uma redondilha
Fui buscar exclamação em um alexandrino
Escapou-me dois quartetos
E deixei voar mais meia dúzia de estrofes.
Sai catando os pontos pelo chão
E encontrei um cê cedilha embaixo da cama
Da qual eu havia caído.
Acordei.
Acordei pra fazer uma poesia.
Mas não fiz.
Vernon Bitu
É, não fiz. Quem acabou fazendo foi Oswaldo Monte Negro
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também
HannaH
Meu coração é uma pedra que lateja
E se desmancha ao estreitar dos dedos teus
Se fossem teus os pensamentos que são meus
Seria minha aquela boca que te beija
Pra quem o verde dos teus olhos brilha?
Se até cegueira o teu olhar me cura
Que nos teus lábios concebo a doçura
E em outro canto não encontro minha trilha.
É o amor que aflito peço a Deus
E é real mesmo que não seja
É o ideal que o desejo mais deseja
E nesse corpo em que habitam vários 'eus'
Meu coração é uma pedra que lateja
E se desmancha ao estreitar dos dedos teus
Vernon Bitu
A desesperança é vermelha
Não é coisa de amor
Sei que a cor é vermelha.
Ando tão desiludido com a forma
Que as coisas estão sendo conduzidas
No Brasil!
Já não vejo caminho
E estou muito triste com tudo isso.
Petista que sempre fui
Sinto agora a dor em vermelho.
Negociatas sujas
Organizações criminosas
Expulsão de Heloísa Helena
Tudo isso dói demais.
Outro partido agora
Seria mal.
Seria reinventar o passado
E deixar que tudo acontecesse novamente.
Por isso perdi as esperanças.
Ai que frio!
Estou analisando tudo muito friamente mesmo
A estrela ficou cinza.
Cinza como o concreto e esse meu descaramento.
Não queria falar sobre nada disso
Meu sofrimento é outro.
Foda-se crise e tudo mais.
A desesperança vermelha
É coisa de amor mesmo!
Vernon Bitu
Eu não sei mais de nada
Eu ando feito louco
E me encontro aos poucos
Mendigando sobejos de beijos
Sobras de sombras
De amores e odores
Que nunca senti.
Lembranças de um tempo
Que nunca existiu
Como eu, que também não existo.
Eu queria mesmo era acordar depois de tudo isso
E se fosse um pesadelo
Acordaria muito bem ao lado dela.
É impossível
Não pela distância
Mas pelos quereres.
Eu odeio a incompatibilidade.
Hoje ta tão frio!
Ah Recife, me faz sofrer
Que saudade é assim mesmo
Eu nem ligo mas sinto-me rasgado.
Eu acho que morri ontem
Só que resisto.
Não sei pra quê tanta força
Eu pretendia amor.
Mas o amor não me ama.
Eu mudo e fico mudo
Só pra ver se tudo fica bem
Não vejo e me aleijo
Mas tem que ser assim
Vi no horóscopo!
Escorpião não gosta de aquário
Um tem medo
O outro precisa desistir.
Não sei pra que fui ler jornal
Uma punhalada a mais.
Se eu não morrer
Não farei tudo novamente
O amor não compensa.
Vernon Bitu
Estas tardes constrastam
As fragilidades de um ser
Com a resistência de pedras artificiais.
A dança das borboletas
E uma nuca que se faz morada duma.
Tamarindo que azeda o fim de tarde
E uma lua que prometo em céu nublado.
Umas águas que me fazem enciumar
E uma prova que eu queria dirigir.
Profissão que eu pretendo abandonar
E a música me chamando pra fugir.
Dá vontade de rasgar o céu da noite
E morar num firmamento matafísico
Perceber o que não fiz
E responder o que ninguém me perguntou.
É Firas
É amor.
Ah! Mas existe engenharia
Será que ainda tenho saco
Talvez a ame!
Mas preciso abandonar
Terminou a concretagem
Que tarde!
Continuam os constrastes!
Vernon Bitu
enquanto sonho, meu amor de vento
insensata alma tosca de papel
escrevo com fumaça
a solidão
sou louco e muito pouco
importo-me com seu céu
escuto musica de ressaca
respiro fumo
transpiro mel
se a noite é de chuva e raios
volto a ser humano então
mas em noites de prata e calmaria
sou lobisomem a solta em agonia
com urros insanos saio
escorregando em cordas frias
dou vida a qualquer Maria
com as mágoas da razão
seus sustenidos arpejos no violão
sonho com você de manhã
de chuva, ou de sol
e se faz vento, frio ou a lua é cheia
lembro-me da gente nos embalos da cama
nossa pressa nossa gana
escritas com tintas das veias
nosso Brahma, nossa teia, suores
cheiros , lençol
no velho colchão abandonado e só
espermatozóides entre molas enferrujadas
ainda brincam e fazem barulho
se acordo de súbito e chamo por você
não foi nada
quisera antes ter nascido mudo
a gritar pra quem é cético, sádico e surdo
e só escuta o próprio orgulho sem saber
traga tudo que ama, e vive agora duma chama
que nunca dará prazer.
Olem Ereinar
Nada me veste tão bem como a nudez
Nada me veste tão bem como a nudez
quando da fome me alimento
da sede me hidrato
e da desilusão fantasio as mais estonteantes quimeras.
Dai eu bebo as bocas que me beijam
e a cerveja que tanto beijo
na verdade e quem me bebe
sendo eu a razao de qualquer embriaguez.
E se a tosse já pensa em sua maldade
Eu peço ao cigarro que me traga
Que me traga um pouquinho de vaidade
Toda vez que eu teimo em ser fumaça.
Quando o vento sente inveja do meu ser
Sou amante de brisa e ventania
O ciúme de todos fumo e bebo
Cuspo dentro do cinzeiro da euforia.
Se o sol vem curar minha ressaca
Ou a morte vem bater em minha porta
Minha alma se dissipa pelos ares
Mas jamais minha poesia estará morta.
Pois o sonho e a razao de eu ser real
E a loucura embasa a minha sensatez
A melhor das minhas caras é de pau
E nada me veste tão bem como a nudez.
Vernon Bitu
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